Etiqueta académica: o licenciado, o mestre, o professor doutor, o doutor, o prof. Cat ..., por Maria Filomena Mónica
A revista Sábado n.º 269 veio acompanhada com um suplemento intitulado “Revista Especial Ensino Superior” e lá encontrei um artigo que adorei e quero muito partilhar convosco.
Já tive várias conversas acerca do tema e posso dizer que já desisti do mesmo, uma vez que estamos inseridos numa sociedade de títulos, onde toda a gente quer ser tratada por doutor.
Aqui vai:
“Quando um editor da SÁBADO me pediu para escrever sobre etiqueta académica, só não me viu sorrir porque tudo se passou por correio electrónico. Por uma vez, alguém me obrigava a pensar numa coisa que há muito deveria ter ocupado o meu espírito. Faço parte da universidade há 35 anos, tendo, aliás, conseguindo a proeza de atravessar este período sem possuir uma beca. Quando necessário, como sucedia aquando da minha presença em júris, pedia a um colega que, tal como eu, se doutorava em Oxford, o gown, azul e carmim, da minha universidade.
Isto faz parte, sei-o, das minhas extravagâncias, porque o traço mais comum na Universidade é o fervor pelos títulos. Quando foi anunciado pelo primeiro-ministro o nome de Vital Moreira para cabeça de lista do PS, o dr. Almeida Santos levantou-se, em êxtase, para relembrar aos militantes que o dito era ‘professor doutor da Universidade de Coimbra’. Horas depois, foi corrigido pelo prof. Cat. Rebelo de Sousa, o qual informou ser aquele prof. Doutor, mas não cat. Para o comum dos mortais, isto não tem importância; para os académicos, é crucial.
Num país com uma arreigada tradição de analfabetismo, um diploma era e é um sinal de distinção. Não dista muito o tempo em que mal entravam na Universidade de Coimbra, os estudantes passavam a ser tratados por drs. Os moçoilos gostavam de se pavonear com batinas pretas pela rua, a fim de se distinguirem dos ‘fruticas’. Assim ficava a sociedade arrumadinha: os primeiros preparavam-se para mandar, os segundos para obedecer.
Quando entrei para a Faculdade de Letras de Lisboa, em 1961, ninguém usava batina, não havia praxes e queima das fitas era desconhecida. Estas bizarrias pertenciam à pacóvia Universidade de Coimbra. A recente massificação do ensino superior – a que correspondeu a proletarização da classe docente e a democratização dos estudantes – levou a que o cenário se alterasse. O modelo coimbrão foi adoptado com requintes: quanto mais recente é a universidade mais pregas têm as becas dos professores e mais dísticos aparecem nas pastas dos alunos. Os recém-licenciados carecem de aparato para se legitimar.
Nos países anglo-saxónicos, o título de ‘dr.’ significa que a pessoa em causa pertence à classe médica. Não é isso que sucede nos países latinos. Em Portugal, até sem autorização, podemos ver apenso ao nosso nome um ‘dr’. Foi o que me sucedeu este ano, com o cartão de crédito, o que só me causou sarilhos, especialmente junto da Amazon, onde, até então, o meu nome figurava sem qualificativos.
Para que os leitores fiquem com uma ideia da nomenclatura académica, aqui segue a lista:
- lic.º (a quem tem a licenciatura); mestre (idem, mestrado); doutor (idem, doutoramento, sem ensinar); prof. doutor (idem, ensinando, mas sem agregação); e prof. cat. (idem, mas com agregação já feita). Devo prevenir que isto pode conter erros, uma vez que as universidades andam em ebulição, por causa de uma uma coisa chamada ‘processo de Bolonha’.”